Marcha em pontas idiopática

Autor: Liliana Ferreira Mota; Ana Silva Marcos; Ana Luís Faria

Última atualização: 2018/11/25

Palavras-chave: Marcha em pontas idiopática; crianças

Resumo


A marcha em pontas idiopática ocorre em crianças saudáveis com mais de 2 anos de idade que caminham em pontas dos pés de forma persistente. É evidente desde o início da sua marcha autónoma, sempre bilateral e nunca progressiva.
Habitualmente é uma condição benigna que resolve espontaneamente na maioria dos casos e que raramente necessita de tratamento cirúrgico. Estima-se que possa atingir 7 a 24% das crianças.
É um diagnóstico de exclusão, o que significa que devemos procurar outras causas que possam justificar a postura, com particular atenção a sinais de alarme sensitivos ou motores.
Quando esta alteração da marcha preocupa a criança ou os pais, deve ser tratada, tendo sempre como objetivo a mínima intervenção eficaz. Se a marcha em pontas for persistente pode complicar com contratura em equino e exigir uma intervenção mais invasiva.




Marcha em pontas idiopática


A marcha em pontas define-se pela ausência de contacto do calcanhar com o chão na fase inicial da marcha.
Enquanto na marcha normal o apoio se inicia pelo calcanhar deslocando-se ao longo do pé (apoio plantar) até aos dedos, na marcha em pontas verifica-se uma inversão desse movimento, iniciando-se pelo apoio dos dedos (em pontas), podendo fazer o movimento inverso ou não fazer de todo. A marcha em pontas idiopática é definida pela persistência, após os dois anos de idade, de marcha em pontas em crianças com desenvolvimento psicomotor adequado e que são capazes de fazer o apoio plantar completo na posição de pé. Estima-se que possa atingir 7 a 24% das crianças na população geral.
Apesar da marcha ocasional em pontas não ser incomum na criança que está a aprender a andar, é uma fonte de grande preocupação dos pais, tornando-se uma causa relativamente frequente de consulta no médico assistente.

Desenvolvimento


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A sua causa é desconhecida, sendo ainda neste momento um diagnóstico de exclusão, ou seja, quando aparece obriga a pensar numa quantidade de outros diagnósticos possíveis.
Algumas das hipóteses para o seu aparecimento são o tendão aquiliano curto, anomalia do músculo solear, origem no sistema nervoso central, origem neurogénica, uso de “voadores”, por “hábito”, hereditariedade (autossómico dominante), entre outras.

A marcha em pontas idiopática ocorre em crianças saudáveis. É evidente desde o início da marcha autónoma, sempre bilateral e não progressiva. Está presente em pelo menos 25% do tempo total de marcha e tem uma duração superior a três meses. Estas crianças são capazes de fazer o movimento normal de flexão dos dedos do pé em direção à perna (dorsiflexão do pé) entre 10-20⁰, e a sua marcha é coordenada e eficiente, com bom equilíbrio e uma base normal.
Estas crianças têm capacidade de corrida, realizam marcha para a frente e para trás sem dificuldade e executam marcha em calcanhares por períodos.
O exame neurológico é normal, sem alterações da espasticidade ou dos reflexos osteotendinosos.

Quais os sinais que deve ter em atenção?


  • marcha em pontas unilateral
  • sem capacidade de corrida, marcha lenta
  • incapacidade em realizar marcha em calcanhares
  • progressiva
  • outros sintomas associados: dor, espasticidade
  • contacto ocular limitado, comportamentos repetitivos ou rituais


Nestes casos, teremos de pensar noutras hipóteses de diagnóstico:

  • Patologia do sistema nervoso central (paralisia cerebral, doenças do movimento..)
  • Patologia Medular (disrafismo espinhal, tumor espinhal…)
  • Patologia neuromuscular periférica (atrofia músculo peroneal, neuropatia, distrofia muscular congénita…)
  • Patologia músculo-esquelética (contractura congénita do tendão Aquiles, ismetria dos membros inferiores…)
  • Patologia do desenvolvimento ou do comportamento (perturbação do espectro do autismo, atraso do desenvolvimento…)



Complicações


O pé equino pode ser uma das consequências da marcha em pontas se se mantiver por um período de tempo prolongado, e pode levar a outras complicações como: fasceíte plantar, sinovites, tendinites, dedos em martelo, neuroma de Morton, entre outros.

Tratamento


Não há evidência de que seja necessário qualquer tratamento para as crianças com marcha em pontas idiopática.
Enquanto alguns autores defendem ser questionável se o tratamento altera ou não o percurso natural da doença, considerando mesmo ser um problema estético que só deverá ser tratado no caso de incomodar os pais ou a própria criança, outros recomendam intervenções de forma a prevenir o desenvolvimento de pé equino.
A identificação e tratamento precoces poderão prevenir futuras complicações. Avaliando caso a caso o tipo de tratamento deverá ser decidido pelo tempo de marcha em pontas, grau de dorsiflexão tibiotársica e idade da criança na avaliação inicial.
As opções terapêuticas devem ser discutidas caso a caso com o médico assistente ed ependem muito da capacidade da criança em fazer o movimento de dorsiflexão do pé:

  • fisioterapia, que poderá até ser realizada no domicílio pelos pais após aprendizagem, durante 1 a 3 anos;
  • uso de calçado formativo, com uma base larga e dura e com um cano alto ou palmilhas com uma porção posterior mais alta;
  • talas ou ortóteses, por um período de 4 a 6 meses;
  • gesso seriado, entre 4 a 6 semanas e com ajustamentos entre 1-2 semanas intervalo;
  • toxina botulínica A, em associação com as opções anteriores.
  • A cirurgia está indicada apenas nos casos em que a criança tem uma contractura fixa em quino, não resolúvel com tratamento conservador.


Os tratamentos mais invasivos obrigam a avaliação em serviços de especialidade (ortopedia pediátrica ou neurologia pediátrica).

Conclusão

A marcha em pontas idiopática é uma condição benigna, ocorre em crianças saudáveis e resolve espontaneamente na maioria dos casos. Se necessitar de tratamento, a primeira linha será sempre o tratamento conservador.

Referências recomendadas



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